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27 de julho de 2012

Marcas só inovam aliando busca por lucro a valores humanos

por innovacentro

Para Lourenço Bustani, uma das 100 pessoas mais criativas nos negócios, valores sociais e ambientais deveriam estar sempre na estratégia das empresas“Uma ideia só é inovadora se melhorar a vida das pessoas”, acredita Lourenço Bustani. Aos 32 anos, o empresário foi destaque na Fast Company como uma das 100 pessoas mais criativas no mundo dos negócios em 2012, ficando na 48ª posição do ranking.

Ao lado do publicitário Igor Botelho, Bustani criou em 2006, em São Paulo, a Mandalah, com a proposta de sensibilizar empresas sobre o papel delas no meio ambiente e na sociedade.

Hoje, a consultoria tem escritórios também no Rio de Janeiro, em Nova York, na Cidade do México, em Berlim e em Tóquio, e emprega 45 pessoas. Uma operação que cresceu quase 500% desde que foi fundada.

Apesar de ter nascido em Nova York, Bustani considera-se brasileiro. Filho de diplomatas e formado em administração e ciência política pela Universidade da Pensilvânia, Lourenço passou grande parte da infância e adolescência viajando, o que, segundo ele, contribuiu para um olhar multicultural e integrador, muito voltado para valores humanos. “Uma visão representada pelo H no fim de Mandalah”, explica.

Em entrevista a EXAME.com, o empresário fala sobre sua relação com o Brasil, o trabalho desenvolvido pela Mandalah e a coerente ligação entre lucro e sustentabilidade.

EXAME.com – Qual é o propósito da Mandalah? 

Bustani – Sensibilizar organizações para que elas ressignifiquem o papel que exercem não só dentro de um contexto de mercado, mas dentro de uma sociedade. Ajudar a conciliar essa busca incessante por lucro, que é fundamental, com o que consideramos ser uma busca necessária por propósito.

EXAME.com – O que você define como “inovação consciente”?

Bustani – A inovação nasce na intersecção entre lucro e propósito. Tem a ver com a crença de que uma ideia só é inovadora se necessariamente melhorar a vida das pessoas. Queremos sensibilizar organizações para que elas tenham consciência sobre o papel que exercem, e com isso redefinam esse papel. Ajudamos no desenvolvimento de uma visão sistêmica sobre os impactos diretos e indiretos das atitudes das organizações.

EXAME.com – É difícil buscar lucro tendo uma mente voltada para a sustentabilidade?

Bustani – De maneira alguma. É o único caminho que eu enxergo. Gerar lucro em detrimento de algo ou alguém é inconcebível, desumano. Ver o lucro gerar um residual positivo e esse residual positivo gerar lucro é uma situação de ganha-ganha e de valor compartilhado absolutamente coerente. A sustentabilidade não pode ser uma discussão periférica. Deve estar em todas as considerações estratégicas de uma empresa.

EXAME.com – Essa visão se reflete de alguma forma na carteira de clientes com os quais vocês trabalham?

Bustani– Só não trabalhamos com empresas de tabagismo. Não há algo bom que essa indústria possa oferecer. Dito isso, estamos sempre abertos a diálogos. Mesmo em empresas petrolíferas – como a Petrobras, por exemplo, com a qual trabalhamos – existem esforços e iniciativas bem intencionados que devemos ajudar a desenvolver. Muitas vezes esse diálogo se conclui e vemos que não existe sinergia. Mas isso acontece em qualquer relação de empresa com parceiro ou financiador.

EXAME.com – Você nasceu em Nova York e passou por em uma série de países como Canadá, Londres, Amsterdã, Paris… Por que escolheu o Brasil?

Bustani – É meu país. Não tendo morado aqui grande parte da minha vida, e tendo viajado muito por ser filho de diplomatas, senti necessidade de entender melhor minha identidade nacional: a que país pertenço? Às vezes passava férias no Brasil e tinha um sentimento de que eram sempre os melhores dias da minha vida. Quando cheguei, me dei conta de que aqui existem coisas muito sutis e um tanto quanto intangíveis, que eu valorizo muito: o jeito humano brasileiro, o toque, o olho no olho, a generosidade. Houve também uma questão profissional. Chegando aqui, demorou muito pouco tempo para eu perceber que o mercado era fértil para novas ideias bem concebidas e bem planejadas. Essa confluência de fatores pessoais e profissionais me trouxe para o Brasil e me mantém aqui.

EXAME.com – Como a vivência em tantos países diferentes influenciou a sua maneira de ver o mundo e as pessoas?

Bustani – Me considero uma pessoa muito integradora. Acredito nessa mescla de conhecimentos, referências, culturas e amigos. Conseguir coexistir dentro de um contexto de contrastes e diferenças e prosperar nesse tipo de ambiente é algo que a vida me deu, e que eu acabei precisando treinar por uma questão de adaptação. A cada quatro ou cinco anos eu precisava sair de um contexto e entrar em outro: novas escolas, novos amigos. E isso se desdobra em uma série de outras coisas. Me considero muito tolerante. Não acredito em verdades absolutas. Estou sempre tentando dialogar com pessoas que tenham pontos de vista muito divergentes dos meus.

EXAME.com – E para o negócio Mandalah, quais as vantagens desse contexto multicultural?

Bustani – Hoje eu tenho uma rede de pessoas muito queridas e de muita confiança em quase todas as grandes capitais do mundo. E se não forem meus amigos, por meio de um grau ou, no máximo, dois, haverá alguém com quem eu possa contar em quase qualquer país. Isso traz uma vantagem considerável para o nosso negócio. A globalização da Mandalah facilitou-se em função dessas redes. Além disso, o que faço hoje é produto do que eu já vivi. Isso é muito natural. A vida de todo mundo é um reflexo do que já foi vivido.

EXAME.com – O que mudou em 6 anos?

Bustani– Do começo até hoje crescemos quase 500%. Estamos em uma trajetória muito positiva, com uma gestão financeira saudável e rentabilidade prevalecente, o que é importante. As pessoas não acreditam que um negócio com todos esses ideais possa gerar lucro. Gera lucro, recebemos dividendos, estamos muito bem. Mas as pessoas que foram impactadas pelo nosso trabalho são métricas muito mais reveladoras.

EXAME.com – Quem são os clientes da Mandalah?

Bustani – Trabalhamos com organizações públicas e privadas, brasileiras e estrangeiras, grandes e pequenas. No setor privado, temos Nike, Natura, GM, Whirlpool, Pepsi e Petrobras. Em ONGs, o Instituto Ayrton Senna. Em educação, o Colégio Bandeirantes e a Escola São Paulo, esse espaço de cultura contemporânea. Em negócios sociais, a AOKA, uma empresa de turismo sustentável. Em fundos de venture capital, trabalhamos com Peixe Urbano, por exemplo. Já trabalhamos com o governo do Estado de São Paulo e hoje estamos com o Sebrae de Minas Gerais.

EXAME.com – Você poderia comentar alguns cases dos quais você se orgulha muito?

Bustani – Para GM, fizemos um estudo global de um ano sobre o futuro da mobilidade urbana. Olhamos para questões como planejamento urbano, energias renováveis, parcerias público-privadas, transportes públicos. Para Nike, ajudamos a criar uma visão tática pra a marca na cidade do Rio de Janeiro, que é o pano de fundo da Copa 2014 os dos jogos de 2016. É a visão que está influenciando nas ações de promoção de esporte nas favelas, patrocínios a atletas, reformas de rampas de skate. Outro trabalho é um estudo que fizemos para o Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos 2016, que servirá como planejamento para o plano cultural das Olimpíadas.

EXAME.com – Você acha que o Brasil está construindo um desenvolvimento sustentável?

Bustani – Eu sou otimista por natureza. Acho que estamos vivendo um momento único e temos pré-condições muito marcantes para inferir que esse cenário vai se prolongar. Dito isso, as nossas amarras não são negligenciáveis. A corrupção no governo nas três esferas realmente atrapalha qualquer tipo de modelo de desenvolvimento. Perdemos um pouco de agilidade e é difícil ter programas com continuidade no Brasil. É tudo muito cíclico, muito influenciado pelos anos eleitorais. Mas também existe um movimento que é difícil de parar. Estamos num momento de mudança muito especial. Talvez essa mudança pudesse ser muito mais veloz se não tivéssemos alguns problemas no sistema que são heranças do passado, mas sem indícios de desaparecimento. Temos um cidadão que se sente totalmente desconectado do projeto político, e isso impacta nas decisões do dia a dia dele, causa apatia. Poderíamos ter 200 milhões de pessoas trabalhando em prol do mesmo norte, mas a realidade das pessoas é tão discrepante. Acho, porém, que o Brasil sempre teve tudo para ser uma grande liderança. Temos problemas estruturais enraizados em questões culturais. Mas há algo muito notável acontecendo aqui, que precisamos saber como acelerar e alimentar para que seja bom para todos. Publicado na Exame.com, em 14/07/2012.

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