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16 de março de 2012

“O Zuckerberg brasileiro vai surgir até o final da década”

por innovacentro

Considerado a voz mais provocativa do Vale do Silício, o indiano Vivek Wadhwa afirma que o Brasil pode liderar a próxima revolução – basta abrir espaço para a nova geração de empreendedores.

Arriscar um palpite em um cenário que muda rapidamente é algo que não assusta Vivek Wadhwa. Especialista em tecnologia e com cadeira cativa na Bloomberg TV, ele já deu o que falar ao afirmar que o Vale do Silício é multicultural apenas na fachada e que ali mulher não tem muita vez. Seus artigos provocam a comunidade de empreendedores e estudiosos, que se orgulham de ter liderado a nova onda tecnológica. Mas que, segundo Wadhwa, devem se acostumar à ideia de assistir à ascensão do Brasil como líder de um movimento que poderá usar o sequenciamento de DNA ou a purificação da água salina como sua ponta de lança.

“Não há nada que possa segurar o Brasil agora”, diz ele que se prepara para dar agora em março uma palestra que é parte do programa da FIAP Faculdade de Tecnologia, em São Paulo. “O país tem recursos, uma população jovem e otimista. É uma sociedade livre, com muitas vantagens que outros países não possuem”. Por essas e outras, Wadhwa olha para o Brasil com grandes expectativas e projeta imensas oportunidades de negócios multibilionários por aqui. Só falta um pouco de espírito coletivo aos empreendedores brasileiros. “Basta só um grupo reduzido, menos de 20 pessoas, para fazer com que as coisas aconteçam”, diz.

Wadhwa é vice-presidente da cadeira de Inovação da Singularity University (SU), uma instituição criada para complementar a educação tradicional oferecida pelas grandes universidades americanas. Também conhecida como a Universidade do Google, pelo suporte que recebe da empresa, a SU oferece cursos como Empreendedorismo e Neurociência, Computação Cognitiva e Estudos Futuros. Convidado pelo co-fundador Peter Diamandis a fazer parte do grupo de mentes brilhantes, Vivek Wadhwa chegou causando. Discutiu meritocracia, multiculturalismo, preconceito. Em uma coluna escrita no ano passado, ele criticou a qualidade dos resultados de busca do Google. Pouco depois, a companhia anunciou mudanças em seu sistema algorítmico. Para o bem e para o mal, Wadhwa levou o crédito.

Por isso é impossível ignorar quando ele diz, por exemplo, que o Facebook está supervalorizado e que a bolha das mídias sociais vai estourar. “Qual é o verdadeiro valor do Facebook? Ele deveria valer US$ 40 bilhões a US$ 50 bilhões e ainda assim seria um ótimo negócio”, afirma. A preocupação de Wadhwa, porém, está nos negócios que ainda vão surgir. “Não adianta ficar copiando essa coisa das mídia sociais, o importante é ver qual será o próximo negócio de bilhões de dólares”.

Wadhwa chega ao Brasil esta semana para participar do Executive Program da Fiap. Aos afortunados que terão a chance de compartilhar sua visão sobre inovação ou suas opiniões sobre o mundo da tecnologia, fica o aviso: ele não está aqui para concordar com ninguém e sim para discutir ideias.
Os jornais e revistas falam muito em um “momento do Brasil”, mas o sr. já disse anteriormente que falta ousadia aos empreendedores brasileiros para que o país se torne realmente um player no cenário mundial em inovação. Em que ponto isso pode acontecer, se é que vai acontecer?
Já está acontecendo. Há um grupo de empreendedores brasileiros que está se organizando para que um seja o mentor do outro. Mas ainda é numa escala pequena, vocês precisam de algo muito maior do que isso. É preciso que esses empreendedores se transformem em milionários, depois em bilionários, para que possam liderar o movimento. Foi o que os indianos fizeram no Vale do Silício [região da Califórnia que congrega as empresas de tecnologia]. Alguns empresários que tinham feito milhões decidiram que era hora de “ajudar a comunidade”. Eles formaram networks e passaram a compartilhá-las com outros empreendedores. Com isso, a comunidade indiana tornou-se extremamente bem sucedida nos EUA. O passo seguinte foi levar esse conhecimento de volta para a Índia, que se transformou em uma tremenda usina em termos de inovação.

É preciso reunir muita gente para dar certo? Como iria funcionar o esquema?
Não, basta uma dúzia ou umas 20 pessoas. Os empresários bem sucedidos devem se unir sob esse espírito de cooperação e começar a doar seu tempo, agindo como mentores dos novos empreendedores para que estes se tornem a próxima geração de sucesso. E as regras devem ser claras: dar, sem pedir nada em troca. Eles não devem fazer isso porque querem lucrar e sim para trazer inovação ao restante do país.

A questão é que boa parte dos empreendedores com esse espírito de colaboração ainda está batalhando para fazer seus negócios darem certo, sem tempo para pensar em um projeto maior.
Eles devem pensar que as lições que podemos tirar ao construir uma companhia se repetem o tempo todo. Quando você junta empreendedores com e sem experiência, aumentam as chances de sucesso. E mentorship é a chave. Essa é a lição que o Brasil precisa aprender, é o que está faltando ao país. A coisa mais importante que está faltando agora é o nível de mentoring.

Esse mentoring deve ser feito por alguém de muito sucesso, como o empresário Eike Batista, ou um representante da mesma geração falando a mesma linguagem?
Inicialmente, os dois. É preciso pessoas com diferentes níveis de experiência e background. Os indianos reuniram pessoas da velha e da nova geração. O ingrediente chave é compartilhar experiência e conhecimento.

A Índia se destacou em tecnologia. Em que áreas o sr. vê o Brasil ganhando destaque daqui para a frente? Temos chance de liderar uma nova onda?
Há muitas áreas em que o Brasil pode brilhar a ponto de se tornar um líder mundial. Não há nada que possa segurar o Brasil agora. O país tem recursos, uma população jovem e otimista. É uma sociedade livre, com muitas vantagens que outros países não possuem. Tenho muitas expectativas em relação ao Brasil.

Além de experiência e conhecimento, o que mais é fundamental para um empreendedor em um país como o nosso poder inovar e crescer?
Para inovar é preciso também aceitar riscos. No Vale do Silício, quando você fracassa, você conta para todo mundo. É um “badge of honour”, é como dizer “olha só, agora sou um cara mais esperto”. No Brasil, os empresários têm vergonha de fracassar, abaixam a cabeça quando isso acontece e se afastam dos outros. Infelizmente, isso acontece muito – e precisa mudar.

Ou seja, nós precisamos fracassar e fracassar bonito?
Sim, e as pessoas precisam começar a se orgulhar disso. É preciso gente que sinta orgulho em dizer “Olha, eu tentei construir esta empresa, não consegui, mas vou tentar de novo. E veja quanto aprendi com isso”.

Mas isso implica em uma grande mudança de cultura e mentalidade, dentro da empresa ou de modo geral. O que o sr. diz a seus alunos na Singularity University? Como ensina a eles que é importante estar mais aberto a mudanças?
Essa nova geração de empreendedores brasileiros é muito ligada ao que acontece no Vale do Silício e está usando muito a internet. O problema é que a geração mais velha não tem essa visão. Os jovens empresários precisam ensinar a eles como se conectar ao mundo através da rede. Meus alunos na SU têm mais conhecimento hoje do que o presidente dos EUA tinha há dez anos. O que eles podem fazer hoje é algo que na minha geração, apenas os governos eram capazes de fazer. Eles têm uma probabilidade muito maior de resolver problemas e desafios do que os governos e estão mais abertos. E isso só é possível por causa da tecnologia. 

Em sua experiência, é possível falar em um certo perfil para o empreendedor de sucesso?
Uma pessoa que seja muito determinada, que trabalhe muito e ouça com atenção é um candidato ao sucesso, especialmente quando falamos em novas tecnologias. Essa é a mágica dos nossos tempos, o seu passado e o seu background não interessam. Você vê essa mágica acontecendo no Vale do Silício o tempo inteiro. Pessoas vêm de um lugar qualquer e transformam seus negócios em companhias bilionárias. Basicamente, eles têm uma visão e a perseguem até torná-la realidade, não importa o quanto custe.

E para isso não é necessário um MBA ou um curso especializado, apenas vontade de dar certo?
É preciso uma educação básica para se comunicar da maneira apropriada. E não interessa o nível da educação, pois o resto vai depender mais da ambição pessoal.

Entre as previsões que o sr. fez para a Bloomberg, havia uma sobre o estouro da bolha das mídias sociais em 2012. Ainda sustenta essa opinião, agora que só se fala do IPO do Facebook que poderá elevar a companhia a um valor de mercado de US$ 100 bilhões?
Sim. Todos estão falando da oferta de ações do Facebook, mas será que a companhia será capaz de justificar esse valor frente ao mercado? A empresa pode crescer para US$ 100 bilhões e depois para US$ 150 bilhões, mas aí não vai conseguir justificar esse valor. Veja bem, o Facebook é uma ótima companhia que bem poderia valer US$ 40 bilhões ou US$ 50 bilhões. E ainda assim seria muito bom. Só não será bom para quem investiu o dinheiro que poupou durante toda a vida.

Quer dizer que o boom das mídias sociais está chegando ao fim?
Nós passamos da conta com essa coisa das mídias sociais. Elas vão mudar e muita coisa vai acontecer nesse setor, mas não é aí que estão os próximos negócios de US$ 1 bilhão. Há muitas tecnologias novas que vão surgir nos próximos anos e é nelas que deveríamos nos concentrar.

Que nova tecnologia poderia se tornar o próximo grande negócio?
Há tantas tecnologias diferentes surgindo, ainda não é possível saber qual vai vencer. Está na hora da nova revolução. Os negócios bilionários poderão vir do armazenamento de dados e sequenciamento de DNA, por exemplo. Eu vejo o corpo se transformando em software. Hoje um sequenciamento de DNA custa US$ 1 mil nos Estados Unidos. Podemos pesquisar e identificar se eu e você temos um padrão em comum, encontrar pessoas como os mesmos genes e ver que medicamentos podemos tomam para viver melhor. E os empreendedores brasileiros poderiam pegar as mesmas informações e desenvolver robôs e máquinas de inteligência artificial.

O Brasil está pronto então para iniciar uma nova onda?
O Brasil está em uma posição tão boa quanto a de outros países. Uma grande parte dos recursos de infraestrutura, saúde, comunicações, água, energia estão disponíveis no país. Quem quiser se dar bem vai precisar desses recursos. Estamos falando de um mercado de US$ 1 trilhão. Enquanto todo mundo está focado em mídias sociais, o Brasil pode liderar a próxima revolução.

O sr. acredita que a sustentabilidade será uma fator de peso nessa revolução?
Pode ser um fator. Em vez de nos preocuparmos em como poupar água, nós deveríamos buscar um processo de limpeza da água e transformar água do mar em água potável. O processo de purificação existente ainda é muito caro porque a energia tem um alto custo. Então por que não inventar melhores formas de utilizar a energia solar e torná-la mais barata? Uma vez que isso se torne possível, pense em sete anos a partir de agora, aí sim você poderá usá-la para purificar a água. A mesma coisa acontece com a comida. Por que não podemos criar melhores maneiras de produzir alimentos? Os empreendedores brasileiros podem ser parte dessa onda. Em dez anos teremos todas essas tecnologias incríveis que vão convergir. O mais interessante é que todas essas tecnologias podem surgir em qualquer parte do mundo, não precisam ser criadas nos Estados Unidos. É só pensar, por exemplo, no que a Apple fez em termos de música e telefonia. Nós nunca tivemos nada igual a um iPod ou iPhone. E agora o meu celular tem inteligência artificial aplicada. Tudo isso era inconcebível há apenas alguns anos.

O sr. diria que o próximo Steve Jobs ou Mark Zuckerberg poderia vir do Brasil?
Com certeza. Acho que, inclusive, é muito provável que o próximo Zuckerberg seja brasileiro.

E quanto tempo vai demorar? Estamos falando de 10, 20 anos?
Eu acredito que o Mark Zuckerberg brasileiro surgirá até o final desta década. E quem sabe não será uma mulher? Ela pode estar começando a sua empresa agora mesmo, enquanto conversamos.

Publicado no site Época Negócios em 12/03/2012 (por Soraia Yoshida)

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