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15 de dezembro de 2011

Demanda por recursos na Finep soma R$ 9 bi

por innovacentro

Microfones instalados na cabeceira da pista de testes da Embraer em Gavião Peixoto, no interior paulista, são capazes de captar o barulho de aviões que pousam e decolam inúmeras vezes. O processamento desses dados acústicos permite aos engenheiros mapear os pontos de ruído e, dessa forma, poder desenvolver aeronaves silenciosas.

Longe dali, em Tomé-Açu, no Pará, a Natura acaba de concluir a experiência de cultivar palma em sistema agroflorestal. A certeza da viabilidade econômica e sustentabilidade do novo processo de cultivo de um produto tradicionalmente obtido em sistema de monocultura leva a empresa a um salto tecnológico na obtenção do óleo de palma usado nos sabonetes.

Não é de hoje que projetos como o da Embraer e Natura são financiados pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), uma empresa pública ligada ao Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT). A novidade é o aumento do apetite das empresas instaladas no Brasil por financiamento nessa área.

O tamanho da carteira de pedidos de crédito para a inovação chega ao fim deste ano a R$ 9,13 bilhões. É um volume quase cinco vezes maior que o registrado no início do ano, segundo o presidente da Finep, Glauco Arbix. Até este ano, conta ele, os técnicos da Finep se frustravam com a falta de interesse das empresas no desenvolvimento de projetos inovadores. Se antes sobravam recursos para linhas de crédito nessa área, agora a Finep se preocupa com a necessidade de ganhar mais fôlego para poder atender às novas demandas.

Um passo nesse sentido será dado hoje, em Brasília, quando será anunciado pelo MCT a criação de um programa voltado às pequenas empresas. Com recursos da Finep e Sebrae, que somarão R$ 270 milhões, acordos com agentes regionais ajudarão no processo de descentralização.

O crescimento de demanda por recursos para inovação tecnológica pode ser a força que a Finep, que surgiu há 44 anos no Rio de Janeiro como empresa de fomento, precisa para se transformar em instituição financeira, como é o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Arbix, que, em parte, afastou-se da área acadêmica para comandar o Ipea antes de assumir a presidência da Finep, em fevereiro, garante que em 20 anos de trabalho na área de pesquisa não havia visto antes a iniciativa privada tão interessada na inovação.

O total de recursos liberados dobrou em quatro anos, passando de R$ 516 milhões em 2006 para R$ 1,2 bilhão em 2010. Mas o que mais chama a atenção é que o total vai alcançar este ano um avanço de 56%, chegando a R$ 1,87 bilhão. “Volumes como esse eram impensáveis há cinco anos”, diz. Segundo ele, se a demanda por inovação desponta num momento em que a economia se retrai é porque os empresários estão voltados para o futuro. “Quem investe em tecnologia está pensando no longo prazo.”

Há um ano, quando a carteira de pedidos não chegava a R$ 2 bilhões, a média de pedidos de crédito por projeto girava em torno de R$ 11 milhões, afirma. Os volumes passaram para médias de R$ 40 milhões, com casos de mais de R$ 70 milhões nas linhas requisitadas pelos investidores do pré-sal.

Os investimentos em pesquisa na camada do pré-sal ajudaram a elevar a demanda por linhas de financiamento. Segundo Arbix, 70% da carteira de pedidos, hoje em R$ 9,13 bilhões, se concentra em cinco áreas: energia (que engloba as pesquisas do pré-sal e bioetanol), saúde, aeroespacial, tecnologia da informação e defesa, incluindo aí não apenas o setor militar como a parte da economia sustentável, com trabalhos voltados para o clima e redução de consumo de energia.

As áreas que se destacam no portfólio da Finep servem também para mostrar que, além de ter perdido o medo do desenvolvimento local, o setor produtivo brasileiro se volta para novas vocações.

As linhas oferecidas pela Finep são atrativas, com taxas de juros que podem chegar a 4% ao ano, com prazos de até três anos de carência e dez anos para a amortização do principal. Além disso, a empresa pública também conta com linhas que podem conter recursos não reembolsáveis. Uma parte desse dinheiro segue para as pesquisas em universidades. Na carteira da iniciativa privada da Finep aparecem empresas como Vale Soluções, Braskem, Weg e Totvs.

A Natura tem usado diversas modalidades de linhas, incluindo recursos não reembolsáveis. Mas para a gerente de gestão e redes de inovação na Natura, Luciana Hashiba, a maior vantagem em linhas dessa natureza é poder contar com especialistas que “entendem de inovação”. Ainda entusiasmada com os resultados da experiência no Pará, que foi apelidada de “projeto dendê”, a executiva conta que a empresa acaba de ter liberado pela Finep um projeto para a pesquisa de ativos da biodiversidade brasileira, que serão usados para o tratamento de pele.

O projeto dendê, que começou em 2007, envolvendo famílias de agricultores, passará, agora, para a fase de busca de escala. Hashiba diz que a empresa tem buscado aumentar a liberação de créditos. “Entendemos que o governo deu um sinal claro de que acredita na inovação como papel importante no crescimento do país”, destaca.

Frederico Curado, presidente da Embraer, se entusiasma com a tendência de crescimento dos investimentos em inovação. “Às vezes as verbas até sobram, porque não há tantas ideias”, destaca. Para o executivo da empresa que circula com frequência na carteira de pedidos da Finep, as companhias podem hoje usufruir de recursos para a pesquisa aplicada, com chances de inovar até mesmo em projetos que às vezes nem sabem quando efetivamente vão usar. Segundo ele, apesar do rigor na aprovação dos projetos – compreensível, diz, tratando-se de uma empresa que lida com recursos públicos – o tempo de liberação tem diminuído.

Curado sente, no entanto, no Brasil, a falta de sistemas mais simples, capazes de agregar, por exemplo, toda uma cadeia de fornecedores e pequenas empresas às gigantes, que normalmente conseguem crédito mais facilmente. “São aperfeiçoamentos que podem ser feitos, como se vê hoje no exterior”, diz.

Para o presidente da Embraer, um movimento nesse sentido depende, sobretudo, de adaptações na legislação brasileira. “As leis brasileiras são menos flexíveis do que no exterior, o que dificulta nos casos em que uma empresa começa um projeto e no meio do caminho percebe que precisa de alguma alteração”, diz. A simplicidade dos processos, acrescenta Curado, ajudaria o Brasil a se aparelhar para a “inovação em grande escala”. Para ele, a democratização do acesso à pesquisa aplicada só tende a ajudar o país. “Porque inovação só serve se servir à sociedade.”

Publicado no Valor Econômico em 15/12/2011.

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