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30 de novembro de 2011

A Kodak está muito mal na foto

por innovacentro

Há quatro anos sem dar lucro e sem caixa para custear suas operações, a Kodak — um ícone americano — recorre à venda de suas valiosas patentes para tentar continuar de pé

São Paulo – Os números apresentados na mais recente conferência para os investidores da Kodak, no início de novembro, não chegaram a surpreender. No terceiro trimestre, a companhia registrou prejuízo de 222 milhões de dólares e queda no faturamento nos primeiros nove meses do ano de 17% em relação ao mesmo período de 2010.
A agonia enfrentada por uma das empresas mais tradicionais dos Estados Unidos já se arrasta há mais de uma década. Desde o fim dos anos 90, a Kodak vem encolhendo e sangrando.

No ano passado, as perdas chegaram a 687 milhões de dólares e, de acordo com as previsões de mercado, neste ano a empresa, que não ganha dinheiro desde 2007, deve fechar com mais prejuízos de cerca de 420 milhões de dólares. 

Em seu pronunciamento na última divulgação de resultados, o presidente mundial da Kodak, o espanhol Antonio Pérez, abriu o jogo — embora isso fosse desnecessário: a situação é dramática.

A companhia precisa levantar recursos urgentemente para continuar a operar em 2012 e isso vai depender do sucesso da venda de cerca de 1 100 patentes depositadas nos Estados Unidos e relacionadas à tecnologia de imagens digitais. Incapaz de explorar as inovações que desenvolveu, a Kodak decidiu abrir mão delas.

As patentes, que poderiam interessar a empresas como Apple, Microsoft, além de fabricantes de equipamentos fotográficos e software, são avaliadas pelo mercado em pouco mais de 2 bilhões de dólares — quantia suficiente para manter a Kodak viva mais alguns anos.

Em outubro, a Imax, empresa especializada na exibição de filmes 3D, anunciou ter assinado um acordo para usar tecnologias para cinema digital desenvolvidas pela Kodak — o valor não foi divulgado. A expectativa é que a Imax consiga, já em 2013, aumentar a qualidade e a nitidez da imagem nas supertelas, com pretos mais intensos, cores mais vibrantes e contrastes mais definidos.  

Intensificar esse tipo de acordo é a única opção com que a Kodak conta no momento para refazer seu caixa. “Sou obrigado a informá-los sobre a situação, que pode parecer alarmante, mas quero ressaltar que estamos muito confiantes e otimistas sobre o sucesso da construção da nova Kodak”, disse Pérez durante a conferência.

Dado o histórico recente da companhia, a rea­ção da plateia não foi exatamente receptiva. A nova Kodak a que Pérez se refere é uma empresa em transição do mundo da fotografia para o de impressoras comerciais e domésticas. Fazer essa guinada foi a missão recebida por ele ao assumir a presidência mundial em 2005.

Antes de chegar à Kodak, dois anos antes, Pérez havia trabalhado por 25 anos na Hewlett-Packard, líder no setor de impressoras. Seria, portanto, a pessoa ideal para executar o plano.

Até agora, no entanto, o mercado não se convenceu de que esse é o caminho mais adequado. Desde a chegada de Pérez, o valor de mercado da Kodak caiu de 8,6 bilhões de dólares para pouco mais de 300 milhões de dólares. 

Para muitos analistas, céticos em relação ao futuro do mercado de impressoras em um mundo em que os documentos e os registros são cada vez mais digitais, tudo o que a Kodak tem feito nos últimos anos é pular de um negócio furado para outro.

Sua história recente é marcada por uma série de trapalhadas e tentativas malsucedidas de diversificar os negócios. Entre os exemplos, o mais marcante é o da câmara digital.

A primeira delas foi desenvolvida por Steven J. Sasson, engenheiro da Kodak, em 1975. Num caso clássico de falta de visão, seus executivos esperaram tanto para focar na nova tecnologia que acabaram sendo ultrapassados pelos concorrentes. 

Até os anos 80, quando ainda era sinônimo de sucesso e controlava cerca de 90% do mercado de filmes e 85% do mercado de câmeras fotográficas nos Estados Unidos, a Kodak vendia produtos de baixo valor e lucrava na venda do filme para alimentá-los. O modelo começou a ruir com a chegada de concorrentes japoneses, como a Fuji Film, cujo filme fotográfico era bem mais barato.

Com altos custos de produção, a Kodak atravessou as décadas de 80 e 90 perdendo cerca de 60 dólares por câmera analógica vendida. Cobrir a diferença na venda de filmes ficava cada vez mais inviável à medida que a concorrência avançava. Ao mesmo tempo, o interesse pela fotografia analógica diminuía, e as câmeras digitais invadiam o mercado e chegavam aos celulares.

O foco no ramo da fotografia analógica da Kodak seria abandonado apenas no início dos anos 2000, quando a decadência financeira já era evidente. “Até hoje, a Kodak paga o preço de ter chegado atrasada em um mercado criado por ela mesma”, diz Mark Kaufman, analista da corretora americana Rafferty Capital Markets.

A maldição do sucesso

Em uma das tentativas de diversificação dos negócios, a Kodak comprou, em 1988, a indústria farmacêutica Sterling Drug, por 5,1 bilhões de dólares.

A ideia era aproveitar os ativos e a experiência na forte divisão de químicos (construída durante anos para o desenvolvimento do filme fotográfico e cinematográfico) para concorrer no setor de saúde. Apenas seis anos depois, a Kodak se desfez do negócio.

“Acreditar que ter um grande laboratório e experiência no desenvolvimento de filmes seria suficiente para ser bem-sucedido na indústria farmacêutica foi mais um dos exemplos da falta de visão e de habilidade de gestão da empresa”, diz Peter Cohan, que, na época, trabalhava para a consultoria Monitor, contratada pela Kodak para reverter a perda de mercado e que teria sido surpreendido pela notícia da compra da Sterling.

A liderança absoluta em seu mercado durante mais de um século parece ter criado uma cultura acomodada em um dos ícones do capitalismo americano. A história da Kodak certamente fará parte dos manuais de negócios. Ao que tudo indica, sem um final feliz.

Publicado na Revista Exame em 24/11/2011.

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